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Quinta-feira, 09.07.09

 

 

Primeiro lemos os outros

Ouvimo-los

As suas vozes


Depois ensaiamos a nossa voz

e pensamos que é nossa essa voz

que começa a exprimir-se

 

Só muito mais tarde descobrimos

que ainda não é essa a nossa voz única

a que diz de nós

ainda não é a nossa voz

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:38

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Sexta-feira, 21.11.08

 

Somos uma síntese única

de tudo o que vemos, ouvimos e sentimos

dos lugares e das pessoas

 

Tudo o que dizemos e fazemos

é uma forma de devolver ao mundo

o que o mundo nos dá

 

É essa a magia da comunicação

afinidades e cumplicidades

 

A proximidade no plano mental

ainda que à distância no plano geográfico

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:44

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Segunda-feira, 13.10.08

 

As personagens

aparecem num palco

fazem a sua vénia

antes e depois

e trazem um papel na mão

 

O palco

os papéis

a lógica das personagens

 

No fundo a lógica das personagens

é a mesma lógica do mundo

e de toda a humanidade

e esse palco é o próprio mundo

e todos os lugares onde existam pessoas

 

Mas estas personagens são especiais para mim

não só porque representei com elas nesse palco

mas porque as suas qualidades de representação

são fora do vulgar

de tal modo que não vi o papel que representavam

fascinada com a sua coreografia

hipnotizada com a sua engenhosidade

 

A lógica do seu discurso é que me convenceu

esses papéis premeditados

essas mentiras e farsas

 

Como é que nos podemos subtrair

à influência dessa lógica

só com a nossa sensibilidade

não me parece que seja possível

parece-me mesmo altamente improvável

 

Mas alimento também eu a ilusão

de me ter libertado dessa lógica

de papéis premeditados

de malabarismos em palco

de mentiras e farsas

toda essa lógica

 

Quando desafiamos assim

a nossa capacidade de ver uma realidade escondida

de que a nossa sensibilidade sempre nos protegeu

o que poderá acontecer?





 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:10

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Segunda-feira, 22.09.08

 

O Poeta, assim o chama o Sonhador

nunca morou realmente nesta cidade

Também não é absolutamente verdade

que tenha pertencido ao que as pessoas chamam sociedade

com o ar mais patético possível

ou ao que quer que seja de parecido

com um clube literário 

 

Alguém, talvez mais do que uma pessoa

disse que não o podemos situar nesta cidade

nem neste país

que há qualquer coisa de universal em homens assim

 

O próprio Sonhador, que o chama respeitosamente e afectuosamente

o Poeta

sempre viu nele essa universalidade

e penso que foi isso que o fascinou mais do que tudo

 

O Poeta, diz o Sonhador, teve de se construir a si próprio

essa é que é a verdade

não foi só uma questão de descobrir personagens

e mestres e afinidades

foi muito mais do que isso

tratou-se de uma construção

de uma filosofia onde pudesse viver

 

Como conseguiu coexistir em si próprio

essas realidades incompatíveis, as dos outros e a sua

é que ainda não consegui perceber

 

O Sonhador chama-lhe personalidade múltipla

É certo que o sonhador, o meu querido amigo

vê coisas que desconheço totalmente

vê a realidade das coisas e das pessoas

ligada a imensas outras realidades

a imensos outros percursos

consegue relacionar tudo isso

 

O meu olhar é muito mais absoluto



 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:47

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Terça-feira, 16.09.08

 

Habituamo-nos aos nossos autores, aos nossos compositores

aos nossos realizadores, aos nossos amigos

aos nossos hábitos

 

Andamos de certo modo condicionados a determinados padrões

e nem damos por isso

 

Convencemo-nos, por qualquer razão

que somos pessoas abertas e tolerantes

que olhamos realmente e vemos

que estamos atentos e ouvimos

mas só vemos e ouvimos

aquilo para que estamos previamente preparados

para ver e ouvir

 

De vez em quando há uns abanões nessa calmaria

mas não passa disso

Fala-se então de equilíbrio

que tudo volta ao equilíbrio desejável

como uma lei da Física

Nada me arrepia mais do que essa palavra

adaptada às pessoas

e à vida e aos relacionamentos

Precisamos de situações inesperadas

que nos acordem realmente

 

Para escapar à tentação de hoje pegar nos meus autores

mas lá acabarei por cair

peguei num livro, Escrever, de Marguerite Duras

que encontrei num Inverno de 94...




 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:10

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Segunda-feira, 08.09.08

 

No fundo, guardamos em nós

essa capacidade de repetição de cenas

que já representámos de uma outra forma

num outro cenário

 

Mesmo que nos dêem instruções

para alterar isto ou aquilo

acabamos sempre por cair na nossa peça inicial

 

É como se fôssemos concebidos

de uma determinada matéria

que não aceita alterações exteriores

porque tem em si um papel para representar

Acredito profundamente nisso

 

As teorias da supremacia do meio

na construção de uma pessoa

nunca me impressionaram

 

Mesmo que mudem os cenários

a criatura já sabe o seu papel

Não se pode ver livre da sua própria composição

já está tudo definido





 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:37

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Quinta-feira, 04.09.08

 

Que novas personagens nos surgem agora

que as não conseguimos achar fascinantes?

 

Muito vistosas e  muito ruidosas, sim

Mas que pensamentos e sentimentos próprios de uma personagem

na sua individualidade e filosofia próprias

encontramos nestas novas personagens?

 

Sacrifica-se tudo ao grupo, foi isso que aconteceu

O grupo determina ditatorialmente a nova personagem

as novas regras do jogo, as novas atitudes

os novos discursos, as novas percepções

Sacrificou-se a pessoa

 

Onde é que podem surgir personagens fascinantes

na ausência de pessoas, por assim dizer?

Autómatos e marionetas, e tudo na roda-viva

dos pensamentos e sentimentos por encomenda

 

Estou perfeitamente convencida que o Filósofo viu isso tudo muito antes

Antecipou esta época, estas novas personagens

e a ausência de pensamentos e sentimentos próprios

 

Imagino o pesadelo que o Filósofo terá tido

quando visualizou por assim dizer esse cenário

Posso até imaginar a tentativa de situar esse cenário

na lógica intrínseca da sua teoria geral

sobre a evolução da espécie humana



 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:37

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Sábado, 30.08.08

 

A maior parte dos homens vê nas mulheres

apenas a ideia que construiu delas

primeiro a imagem exterior, a que ficam presos durante muito tempo

depois, certas características

mas sempre desligadas umas das outras, como colagens

a ternura, a sensualidade, a inteligência (esta mais raramente)

 

Em vez de mostrar aos homens as alternativas a esta ilusão

como o lado real da vida, o que realmente conta e perdura

as mulheres resolveram aderir ao lado aparente da vida

das coisas provisórias e precárias

abandonaram a sua alma feminina, mais universal e tolerante

para seguir a alma da conquista de um território

 

Um dia vão querer retomar o caminho de volta

ao mundo das coisas reais e verdadeiras

mas já estará tudo minado



 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:18

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Quinta-feira, 21.08.08

 

Sim, a música também nos leva até esse tempo-espaço

que nunca é exactamente como foi mas uma reconstrução

 

Misturamos tudo, emoções e pensamentos 

imagens e claridades

 

Somos o que vivemos desde essa altura até agora

tudo no nosso cérebro como uma coisa viva

e sempre em transformação

 

Mil vezes essa amálgama confusa

de sentimentos e pensamentos, imagens e acontecimentos

que nunca sei situar

do que as certezas arrumadas de alguns

que não se deixam sequer transformar pela vida

em que a vida mal toca, passam pela vida de raspão

mergulham na existência e até parece que vivem intensamente

que mergulham por assim dizer na realidade

mas no fim de contas é tudo uma questão de superfície, de pele

não de essência nem de alma

 

A cada um a sua natureza



 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:49

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Quarta-feira, 13.08.08

 

Depois da minha visão da realidade nesse dia

tive pena de não me ter apercebido da minha realidade há mais tempo

Todo esse tempo perdido, pensei

 

Como é possível não ter visto tudo isso

e tudo tão lógico e evidente

Mas claro que se fosse lógico e evidente já teria dado por ela

 

Não estava preparada para essa visão da realidade

É como uma cegueira selectiva ou uma surdez selectiva do pensamento

Só vemos e ouvimos o que queremos ver e ouvir

 

Quando me apercebi da minha realidade

fiquei com a sensação inicial de estar a ver um filme com outras personagens

Nesse filme eu não representava o papel principal

e isso foi logo a primeira coisa que me preocupou

 

Uma pessoa demora uns tempos a recompor-se de uma visão destas

nunca mais é a mesma

Alguma coisa de essencial mudou

e vai ter de aprender a viver com essa visão

 

Talvez por ser tão difícil viver com essa visão

é que a maioria prefere viver com ilusões

Ou simplesmente uns têm uma protecção genética contra a visão da realidade

porque as ilusões são necessárias à vida

e outros não têm essa protecção genética

e os sintomas da visão da realidade acabam por se manifestar mais tarde



 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:33








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